foto do escritor Andrade Santos

ANDRADE SANTOS

ESCRITOR

Andrade Santos nasceu na cidade de Torres Vedras.
É sociólogo (licenciado em Sociologia Aplicada).
Trabalhou numa das maiores editoras portuguesas.
Foi jornalista na RTP, Director da Biblioteca Municipal de Torres Vedras e Director do Gabinete de Estudos Torreenses (CMTV). Dirigiu suplementos literários e revistas culturais.
Tem colaboração dispersa por jornais nacionais.
Na sua área académica tem publicado Estudos na vertente da Sociologia Urbana.
No domínio da literatura vem publicando obras em conto, novela, romance e crónica.
É membro da Associação Portuguesa de Escritores desde 1976.

foto do escritor Andrade Santos com sombras
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CONTACTOS

andrade.arandis@gmail.com

Telem. 929 442 298

 

Rua Bombeiros Voluntários, 20, 2º
2560-320 Torres Vedras

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CURRICULUM

O autor aos 3 anos.
(1946)

CURRICULUM

Andrade Santos nasceu na cidade de Torres Vedras.

Fez os estudos secundários no Liceu (Escola Secundária) desta cidade. Estudou Sociologia, em Lisboa, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), e, mais tarde, bacharelou-se e licenciou-se em Sociologia Aplicada na Universidade Lusófona de Lisboa. É especialista em Sociologia Urbana. Possui, também, diplomas de formação de cursos e seminários que frequentou na área das Ciências Documentais.

ACTIVIDADES PROFISSIONAIS NAS ÁREAS DA COMUNICAÇÃO E CULTURA
  • Inicia-se muito jovem, com 16 anos, na colaboração jornalística, escrevendo para o Juvenil do “Diário de Lisboa”.
  • Foi redactor de uma das maiores editoras portuguesas.
  • Exerceu actividade de jornalista na R.T.P. (Radiotelevisão Portuguesa).
  • Foi Director da Biblioteca Municipal de Torres Vedras durante 15 anos.
  • Desempenhou a seguir, durante mais 15 anos, o cargo de Director do Gabinete de Estudos Torreenses (CMTV).

Com os pais, aos 14 anos. (1957).

Com os colegas do liceu, aos 15 anos. (1958).

OUTROS CARGOS DE DIRECÇÃO QUE DESEMPENHOU EM INSTITUIÇÕES SOCIOCULTURAIS
  • Director do Suplemento Literário “Oeste Cultura”.
  • Fundador e Director do Centro Cultural de Torres Vedras.
  • Delegado regional do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis — FAOJ (Ministério da Educação).
  • Fundador da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras.
  • Director de Actividades Culturais da Associação de Educação Física (FÍSICA) — Torres Vedras.
  • Chefe de Redacção da Revista “Torres Cultural”.
  • Director da Revista “Oeste Cultural”.
ACTIVIDADES CONGÉNERES
  • Foi membro do grupo de trabalho das Bibliotecas Públicas, que, no âmbito da BAD, da Secretaria de Estado da Cultura, e do Instituto Português do Livro e da Leitura, elaborou o projecto da actual Rede Nacional de Leitura Pública.
  • Pertenceu ao Secretariado das 1ª Jornadas de Leitura Pública da Região de Lisboa e Oeste.
  • Foi autor da Memória Criativa que esteve na base do projecto da nova Biblioteca Municipal de Torres Vedras.
  • Tem proferido Conferências e Comunicações, e participado em inúmeros Congressos e Seminários de carácter científico e cultural.
  • Organizou dezenas de Debates e Fóruns, convidando as mais importantes personalidades portuguesas das áreas da Economia, Política, e Cultura.

Aos 24 anos. (1967).

Aos 24 anos, em Londres. (1967).

  • É membro da Associação Portuguesa de Escritores desde 1976.
  • Pertenceu à Comissão de Acompanhamento do Plano de Pormenor de Reabilitação do Centro Histórico de Torres Vedras — Processo de Revisão.
OBRA PUBLICADA

FICÇÃO

  • Ganhadores de Pão, Conto, Colectânea, 1968.
  • Companheiro da Noite, Conto, Colectânea, 1968.
  • Oestinos, Contos e Novelas, 1976.
  • Quatro Mil Luas, Romance, 1994.
  • O Indomável Profeta das Aves, Conto, Colectânea, 1996.
  • Wellington Mágico, Short Story (Novela Curta), texto traduzido em francês e inglês, 2014.

TESTEMUNHO

  • Canto Maio no Meu Oeste Lindo, Colectânea, 1983.
  • Exercício de Amor a Uma Cidade, in Revista TORRES CULTURAL, 1998.
  • Viagem no Centro Histórico / Viagem no Alfazema e Choupal, Textos da obra TORRES VEDRAS POR EDUARDO GAGEIRO, dois volumes encadernados guardados em caixa especial, textos traduzidos em francês e inglês, 2017.

HISTÓRIA POLÍTICO -SOCIAL

  • Crónica de Tantos Feitos, 1986. 2.ª edição, 2005.
  • Lutas Liberais no Oeste Português, in Jornal BADALADAS, Suplemento Especial de 8 páginas, 1992.

Aos 25 anos, junto do músico e crítico de jazz Manuel Jorge Veloso. (1968).

Aos 25 anos. (1968).

TEORIA POLÍTICO-SOCIAL E IDENTIDADE

  • O Oeste e a Regionalização Política em Portugal, in Jornal BADALADAS, Suplemento Especial de 8 páginas, 1996.
  • Oeste, Terra, Homem e Imaginário, in Revista OESTE CULTURAL, 2002.


ENSAIO SOBRE PERSONALIDADES

  • Henriques Nogueira, plaquete, 1985.
  • Antero de Quental em Santa Cruz, 1991.
  • Batalha Reis no Turcifal, 1993.


  • Na sua área académica tem elaborado Estudos no domínio da Produção Teórica do Social, nomeadamente na vertente da Sociologia Urbana.
  • Foi coordenador do Estudo “Leitura Sociológica do Centro Histórico de Torres Vedras” e do respectivo Plano Estratégico de Reabilitação Social do referido Centro Histórico.
  • Tem colaboração dispersa pela imprensa, com trabalhos publicados em grandes órgãos da Comunicação Portuguesa, entre os quais, “Diário de Lisboa”, “Diário Popular”, “A Capital”, “República”, “O Diário”, “Seara Nova”, “Público”.
  • Está representado no “Dicionário Cronológico de Autores Portugueses”.

 

O Município de Torres Vedras atribuiu-lhe a Medalha de Prata de Mérito Cultural.

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ÓRGÃOS DE INFORMAÇÃO NACIONAL NOS QUAIS O AUTOR PUBLICOU OS SEUS TRABALHOS OU ONDE HÁ REFERÊNCIAS AO AUTOR

Elizabeth Gabriela, aos 26 anos, mulher do autor.
Do casamento descendem dois filhos e uma filha.
(1970)

ÓRGÃOS DE INFORMAÇÃO NACIONAL NOS QUAIS O AUTOR PUBLICOU OS SEUS TRABALHOS OU ONDE HÁ REFERÊNCIAS AO AUTOR

JORNAIS
REVISTAS

Aos 28 anos. (1971).

Aos 28 anos, em reportagem na companhia de trabalhadores agrícolas do Ribatejo. (1971).

JORNAIS

AVANTE

 

A CAPITAL

 

O DIÁRIO

 

DIÁRIO DE LISBOA

 

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

 

DIÁRIO POPULAR

 

ESTEIRO

 

EXPRESSO

 

JORNAL DE LETRAS

 

NOTÍCIAS (LOURENÇO MARQUES)

 

PÚBLICO

 

REPÚBLICA

REVISTAS

FLAMA

 

HISTÓRIA

 

LER

 

O MILITANTE

 

MULHER

 

OBSERVADOR

 

OESTE CULTURAL

 

SEARA NOVA

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SUPLEMENTO CULTURAL E REVISTAS QUE O AUTOR DIRIGIU

Aos 30 anos, no Alentejo (Mértola) em reportagem. (1973).

Aos 30 anos, em reportagem com pescadores de Sesimbra. (1973).

SUPLEMENTO CULTURAL E REVISTAS QUE O AUTOR DIRIGIU

Aos 33 anos, com o escritor Sttau Monteiro. (1976).

Aos 36 anos, junto do General Vasco Gonçalves. (1979).

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Aos 37 anos, junto do maestro Lopes Graça.
(1980)

Aos 41 anos, com o escritor José Cardoso Pires. (1984).

OBRAS PUBLICADAS

OBRAS DO AUTOR

OBRAS NAS QUAIS
O AUTOR PARTICIPOU

Aos 41 anos, com a escritora Matilde Rosa Araújo. (1984).

Aos 48 anos. (1991).

CONTOS

 

EDITORIAL SEARA NOVA, LISBOA, 1976
11.5 X 18.5 cm

COLECTÂNEA

 

EDIÇÕES MIC, LISBOA, 1983
14.5 X 20 cm
Inclui um Testemunho do autor, com o título ‘‘Canto Maio no meu Oeste lindo’’

Aos 48 anos, acompanhado pelos poetas João Rui de Sousa e Luis Filipe Rodrigues. (1991).

Aos 49 anos, junto da professora universitária Tereza Moura Guedes. (1992).

ENSAIO

 

EDIÇÃO CMTV, T. VEDRAS, 1985
– PLAQUETE –
11 X 31 cm

CRÓNICA

 

EDITORIAL LIVROS HORIZONTE, LISBOA, 1986
14 X 21 cm

Aos 50 anos, com o escritor Fernando Dacosta. (1993).

Aos 50 anos. No salão da casa da Quinta da Viscondessa (Turcifal) que fora propriedade do escritor Jaime Batalha Reis. Nesse salão juntavam-se os intelectuais da geração de 70, como Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental e outros. (1993).

ENSAIO

 

EDIÇÃO CMTV, T. VEDRAS, 1991
21 X 30 cm

ENSAIO

 

EDIÇÃO CMTV, T. VEDRAS, 1993
21 X 30 cm

Aos 50 anos, com o escritor Urbano Tavares Rodrigues, o poeta João Rui de Sousa e a professora universitária Tereza Moura Guedes.
(1993)

Aos 50 anos, ao lado do Coronel Vasco Lourenço e do historiador César de Oliveira. (1994).

ROMANCE

 

EDITORIAL ESCRITOR, LISBOA, 1994
15 X 21 cm

CADA EXEMPLAR DA PRIMEIRA EDIÇÃO LEVA CINTA VERMELHA COLOCADA PELO EDITOR

Aos 52 anos, junto dos políticos João Cravinho e Sérgio Ribeiro.
(1995)

Aos 53 anos, ao lado do político Álvaro Cunhal.
(1996)

COLECTÂNEA

 

EDIÇÃO CMTV, T. VEDRAS, 1995
18 X 27 cm
O autor é secundário. Fez a selecção de textos e a coordenação da edição.

COLECTÂNEA

 

EDITORIAL ESCRITOR, LISBOA, 1996
14.5 X 21 cm
Inclui um Conto do autor, com o título
‘‘O Indomável Profeta das Aves’’

Aos 53 anos, com o político Marcelo Rebelo de Sousa. (1996).

Aos 53 anos, junto do político Mário Soares. (1996).

FOTOGRAFIA DE VIAGENS

 

EDIÇÃO CMTV, T. VEDRAS, 2003
23.5 X 28,5 cm
Texto do autor, nas línguas portuguesa, francesa e inglesa.

COLECTÂNEA
(ACTAS)

 

EDIÇÃO ADRO, T. VEDRAS, 2003
16 X 23,5 cm
Inclui um Ensaio do autor, com o título
‘‘Oeste, Terra, Homem e Imaginário’’

Aos 53 anos. Ao seu lado, a cantora lírica Helena Vieira. (1996).

Aos 53 anos, com o historiador Fernando Rosas. (1996).

CRÓNICA

 

EDIÇÃO CMTV, T. VEDRAS, 2005
SEGUNDA EDIÇÃO ACOMPANHADA DE 60 FOTOGRAFIAS
19 X 24 cm

COLECTÂNEA

 

EDIÇÃO
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES
EDITORA ÂNCORA

 

LISBOA, 2014
15 X 23 cm
Inclui um texto de ficção do autor, com o título ‘‘A Revolução Florida’’

Aos 54 anos, na companhia do escritor cabo-verdiano Manuel Lopes. (1997).

Aos 54 anos, com o maestro António Vitorino de Almeida. (1997).

SHORT STORY (NOVELA CURTA)

 

EDIÇÕES COLIBRI, LISBOA, 2014
14.5 X 21 cm
Texto nas línguas portuguesa, francesa e inglesa.

FOTOGRAFIA DE VIAGENS

 

EDIÇÃO CMTV, T. VEDRAS, 2017
24.5 X 31 cm
‘‘TORRES VEDRAS POR EDUARDO GAGEIRO’’
– Viagem no Centro Histórico –
– Viagem no Alfazema e Choupal –
(Dois volumes encadernados guardados em caixa especial)

Textos do autor, nas línguas portuguesa, francesa e inglesa.

Aos 54 anos, junto do artista plástico (pintor) António Trindade.
(1997)

Aos 55 anos, ao lado dos futebolistas Eusébio, José Augusto, Jesus Correia, o treinador Joaquim Meirim e o Director do Jornal ‘‘A BOLA’’, Vitor Serpa. (1998).

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CRÍTICAS ÀS OBRAS
DO AUTOR

Aos 57 anos, com o político Basílio Horta.
(2000)

Aos 57 anos, no 1º Congresso do Oeste. (2000).

CRÍTICAS ÀS OBRAS
DO AUTOR

«OESTINOS de Andrade Santos constitui uma lição. Há novos escritores atentos às lutas do nosso povo, e capazes de aprender com ele a fazer uma literatura nova. Andrade Santos procura estruturar, nas várias narrativas, a compreensão das relações entre as classes e camadas sociais do Oeste Português.»

Álvaro Pina, Professor universitário,

crítico literário, 1976.

 

«Nas duas centenas de páginas deste livro agreste e duro, os problemas de quem trabalha e sofre a exploração aparecem descarnadamente, na sua crueza natural, vendo-se ainda como o homem em cada momento de servidão descobre um alento de combate.»

Carlos Coutinho, Jornalista, divulgador literário, 1976.

OESTINOS, contos
Editorial Seara Nova, Lisboa, 1976

Aos 57 anos, na companhia do escritor Armando da Silva Carvalho. (2000).

Aos 58 anos, junto do político Durão Barroso. (2001).

«OESTINOS é um livro deste tempo, escrito antes da queda do fascismo.
Uma colecção de textos que revelam um escritor. E mais do que um escritor, um homem que entende a literatura como arma na luta por dias melhores.»

José Jorge Letria, Escritor, 1976.

 

«OESTINOS. Histórias de vidas duras: camponeses, operários, pescadores. Contos que são gritos de protesto, de acusação e de luta.»

Maria Ondina Braga, Escritora, 1976.

 

«Contos que abarcam temas como o do paraíso da infância, do amor, da frustração, sem esquecer o conflito ético ou os traços fortes do drama social dos camponeses, operários e pescadores do Oeste (…).

OESTINOS, o triunfo de um neologismo leal.»

Oliveira Melo, Professor, historiador, 1999.

CRÓNICA DE TANTOS FEITOS, Crónica
Editorial Livros Horizonte, Lisboa, 1986

«Esta obra constitui um testemunho generoso, produto da experiência vivida por quem esteve por dentro de alguns acontecimentos que povoaram o nosso universo político nos anos difíceis de 1974 e 1975 (…).

Apesar da profusão de actividade editorial que, ao longo deste decénio, abordou esta temática, a crónica ora presente terá lugar importante na produção intelectual criadora e livre que o 25 de Abril nos permitiu.»

Vitor Alves, Tenente-Coronel, membro do Conselho da Revolução, 1986.

Aos 58 anos, com o músico Pedro Caldeira Cabral e o poeta Luis Filipe Rodrigues. (2001).

Aos 58 anos. No centro da mesa o, então, Bispo D. Manuel Clemente.
(2002)

«Considero esta obra uma preciosidade. Este livro nunca poderia deixar de ser publicado.»

Felicidade Alves, ex-padre, Director editorial, 1986.

 

«CRÓNICA DE TANTOS FEITOS tem, para mim, muito interesse e o sabor algo romântico de anos idos que foram de enorme esperança. É bom que haja coragem para dar à estampa páginas como estas repletas de vida e experimentação.»

Vitor Serrão, Professor universitário, historiador, 1986.

 

«Crónica recheada de elementos importantes para a história torreense mais recente.»

D. Manuel Clemente, Bispo, historiador, 2005, na 2ª Edição da obra.

 

«Andrade Santos dá-nos, com este livro, o relato de uma história recente, de uma história que transformou o nosso mundo, aquele que mais de perto nos rodeia (…).

E o autor diz-nos, sobretudo, que só há uma maneira do povo transitar da categoria abstrata a sujeito da história, isto é, lutando pelos seus próprios direitos.

Uma crónica de tempos muito recentes, que recomendamos.»

Jornal O DIÁRIO, 1986.

 

«Uma série de testemunhos sobre vários acontecimentos dos anos 75 e 76. Uma escrita empenhada na defesa de uma visão das coisas bem situada (…).

Um documento para que, mais tarde, se estude a forma como os acontecimentos foram vistos pelos seus intervenientes.»

Revista HISTÓRIA, 1998.

Aos 60 anos, junto da casa onde nasceu, no Centro Histórico da cidade de Torres Vedras. (2003).

Aos 60 anos, ao lado do fotógrafo Eduardo Gageiro e do filho Nuno Andrade Santos. (2003).

QUATRO MIL LUAS, Romance
Editorial Escritor, Lisboa, 1994

«Um belo e absorvente texto narrativo pelo qual passam situações, personagens, lendas e personificações. A Região Oeste tem em QUATRO MIL LUAS o seu romance de dianteira e em Andrade Santos o imaginador e virtuoso da sua linguagem.»

João de Melo, Escritor, 1994.

 

«Uma obra onde o realismo mágico, o barroco, o surrealismo, o desmesurado, o fantástico se cruzam, se soltam, nos soltam.

Apaixonante este belíssimo romance de Andrade Santos.»

Fernando Dacosta, Escritor, 1994.

 

«Subitamente dei-me por refém de uma leitura alucinante, febril, repleta de ideias, mensagens e testemunhos que revelam um notável trabalho de pesquisa e uma invejável cultura do autor.

O romance QUATRO MIL LUAS é uma fonte de sabedoria e, na literatura portuguesa contemporânea, uma das melhores obras que tive oportunidade de ler.»

Aristides Teixeira, Publicista, divulgador literário, 1994.

 

«Este romance tem uma dimensão épica, na medida que aborda a grande questão do destino de um povo.

Se me pedissem para encontrar três palavras que dessem uma ideia essencial desta obra, as primeiras que me ocorreriam seriam força, exuberância, luz.»

Tereza Moura Guedes, Professora universitária, 1994.

Aos 62 anos, no lançamento de uma das suas obras. (2005).

«Indiscutivelmente um belo fresco sobre o Oeste, região esquecida na literatura.

Uma obra com imagens belas, atravessada por linguagem poética e criativa (…).

É um livro socialmente crítico, mas místico, na medida que muito daquilo que o escritor escreve fá-lo através de situações mágicas e fantásticas que ultrapassam os domínios do real.»

António Augusto Sales, Escritor, 1994.

 

«Comoveste-me nas linhas que dedicaste à procissão dos Passos no momento do encontro de Jesus e sua Mãe.»

D. Manuel Clemente, Bispo, historiador, 1994.

 

«QUATRO MIL LUAS é, também, a colocação muito elevada da beleza pagã. Entramos, assim, no mágico, no místico, no fantástico, bastando crer (…).

Considero este livro sedutor, onde a fantasia de uma imaginação atrevida se soltou e não houve freio que a contivesse.

Três nomes famosos me ocorreram quando da leitura desta obra. James Joyce com ULISSES, Marion Zimmer Bradley em AS BRUMAS DE AVALON e Gabriel Garcia Márquez nos CEM ANOS DE SOLIDÃO.»

Leonilde Leal, Escritora, professora, 1994.

 

«Há um mago chamado Colombo, uma feiticeira chamada Evelina, uma encantadora neta chamada Amêndoa Bela, um Presidente da Câmara chamado Meneses Melo, uma prostituta matriculada chamada Orquídea Negra, um garoto chamado Teodoro Engenhocas e muito mais personagens.

Apaixonante e belíssimo romance.»

Jornal PÚBLICO, 1994.

 

«Um dos títulos a reter durante três meses e que não nos largarão tão cedo.»

Revista LER, 1994.

Aos 69 anos, acompanhado por António Macedo e António Cartaxo, da RDP. (2012).

TORRES VEDRAS POR EDUARDO GAGEIRO,
Fotografia de viagens
Edição CMTV, T. Vedras, 2003.


Obra com texto de Andrade Santos nas línguas portuguesa, francesa e inglesa.

 

«Um dos mais belos textos que foram escritos sobre a cidade de Torres Vedras. Trabalho literário de uma concisa construção.

Andrade Santos ama e sente o que escreve de uma maneira tocante, poética e capaz de nos envolver (…).

Que estamos em presença de uma prosa culta isso é indiscutível.

Se as fotos de Eduardo Gageiro são belas, este texto não o é menos.»

António Augusto Sales, Escritor, 2003.

Aos 69 anos, com os escritores António Augusto Sales, Irene Antunes e Ana Meireles. (2012).

WELLINGTON MÁGICO, Short story (novela curta)
Edições Colibri, Lisboa, 2014


Obra com texto nas línguas portuguesa, francesa e inglesa.

«Uma escrita poderosa, sábia e rica nos pontos de vista do léxico e da semântica.

Qualquer antologia justa sobre o realismo mágico português incluiria, seguramente, este texto como um bom exemplo daquilo que nós, há muito, pretendemos dizer. Ou seja, que a magia se confunde com a melhor literatura e vice-versa.»

João de Melo, Escritor, 2014.

 

«O leitmotiv da narrativa são as Invasões Francesas, nomeadamente as batalhas ocorridas na Região Oeste, onde se salienta o grande general inglês Arthur Wellesley, mais tarde Duque de Wellington.

Numa técnica de escrita evoluída, tempo, espaço, real e imaginário cruzam-se vertiginosamente numa narrativa apaixonante.

Mais uma vez é notável o grande fôlego ficcional do escritor e o seu magistral domínio da língua portuguesa.»

Rui Filipe Hilário, Professor, mestre em Estudos Portugueses, 2014.

 

«WELLINGTON MÁGICO é uma peça literária, sem dúvida, pedagógica, resultante de um saber da experiência feita na matéria versada, e com o seu quê de inédito quanto à organização e ao desenvolvimento do tema.

Obra escrita num português irrepreensível, o que vai sendo raro mesmo entre os maiores. As duas traduções propiciarão, certamente, o interesse de especialistas estrangeiros no assunto desde sempre tão caro ao autor.»

José Correia Tavares, Escritor, Vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores, 2014.

Aos 74 anos, junto do compositor-cantor Luis Cília. (2017).

«Magnífico livro.

Vou tomar a liberdade de fazer um painel com a capa, a fim de figurar nas exposições sobre A GUERRA PENINSULAR E A LITERATURA, que continuam a realizar- -se no país.»

José Vale de Figueiredo, Escritor, crítico literário, 2014.

 

Nota: José Vale de Figueiredo é considerado como o maior especialista português na área da literatura que aborda a Guerra Peninsular (Invasões Francesas). Foi o coordenador das exposições sobre o referido tema, no âmbito da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

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TEXTO SOBRE O AUTOR

TEXTO SOBRE O AUTOR

SETEMBRO 2020
ARTIGO (UMA PÁGINA COMPLETA DE UM SEMANÁRIO) DA AUTORIA DE RUI FILIPE HILÁRIO, PROFESSOR, MESTRE EM ESTUDOS PORTUGUESES, FAZENDO UMA APRECIAÇÃO GLOBAL SOBRE O AUTOR.
LEIA-SE O TEXTO NAS PÁGINAS SEGUINTES
ANDRADE SANTOS – ESCRITOR
OBVIAMENTE OESTINO E TORREENSE
Rui Filipe Hilário

‘’A arte é um dos meios que une os homens’’, Leon Tolstói

Andrade Santos, escritor, licenciatura em Sociologia, especializado em Sociologia Urbana, e com estudos de formação em Ciências Documentais, nasceu em Torres Vedras no centro histórico, ali onde se ladeia o morro do castelo. Torres Vedras, então vila, nos meados do século XX, era uma aglomeração urbana típica de província, como muitas outras no País marcada pelo ruralismo. Na pacatez das ruas pululava um comércio variado com inúmeras lojas de vestuário, calçado e afins, que além da vila serviam produtos básicos às aldeias. No centro havia serviços administrativos, bancos. E na periferia adegas, armazéns. Era a agricultura de hortícolas e cereais, mas sobretudo a vitivinicultura que ocupava a maioria da população. A indústria metalúrgica, que atingiria dimensão nacional, estava em pleno desenvolvimento.

Andrade Santos descende de uma família da elite operária metalúrgica desta região. Seu tio e seu pai, no princípio do século passado, foram pioneiros do industrialismo oestino cujo centro era Torres Vedras.

O mundo rural e industrial envolveram-no desde criança. O seu carácter e ideais de vida sempre foram influenciados pelo cristianismo proveniente de sua avó e da mãe e pelo marxismo de seu pai.

Publica pela primeira vez, com apenas 16 anos, no suplemento juvenil do Diário de Lisboa. Mais tarde, durante os anos 60-70, residiu, trabalhou e estudou em Lisboa. Aqui exerceu funções numa das maiores editoras portuguesas e foi jornalista no Telejornal da RTP. Escreveu em grandes órgãos de Comunicação Social, entre outros, Diário Popular, A Capital, República, O Diário e Seara Nova. De relevar, o projecto do jornal AE, no qual participou com grandes intelectuais portugueses de esquerda, entre eles, José Saramago. No entanto, o jornal proibido pela Censura não chegaria à publicação.

Em Torres Vedras, onde regressava amiúde, A. Santos não deixa de colaborar em jornais. Realce para dois textos com o título “Nova Revolução Francesa” sobre o “Maio de 68” publicados no semanário, Badaladas. Defender slogans como “chacun est libre d’être libre” ‒ quando Salazar governava Portugal ─ valeu-lhe o interesse da polícia política. Contudo esses textos de A. Santos pareciam premonitórios. No ano seguinte, o País assistiu a manifestações de estudantes, logo reprimidas com extrema violência.

Nessa época, por volta de 1970, em Torres Vedras, Andrade Santos e Venerando Ferreira de Matos impulsionariam a mudança da Escola Secundária para Liceu. E com implicação política surgiram também dois números do Oeste Cultura dirigidos por A. Santos, insertos no Badaladas. Este “Suplemento de Literatura-Arte-Pensamento-Acção” propõe-se analisar “problemas socio-culturais que fazem estação em Torres Vedras”. Teve colaboração de José Cardoso Pires e Maria Teresa Horta. Porém, será cancelado após o segundo número.

Convidado a regressar em definitivo a Torres Vedras, depois de Abril de 1974, A. Santos assumirá aqui cargos de responsabilidade. Primeiro como director da Biblioteca Municipal e, mais tarde, director do Gabinete de Estudos Torreenses. Fará um percurso no campo cultural, literário, jornalístico e associativista. Na Biblioteca A. Santos tal como o seu antecessor, prosseguiu um trabalho de organização transformando-a em “Centro Cultural”. Em 1976, quando A. Santos assume a direcção havia 400 leitores de presença. Passados 14 anos, servindo o município e outros nas proximidades, contaria entre leitores de presença e domiciliária com frequência anual, mais de 25 000. Na realidade a Biblioteca tornara-se num “espaço aberto”.

O escritor António Augusto Sales, também torriense, reconhece-lhe mérito: estuda, aprende, investiga, organiza, aplicando a sua capacidade intelectual de um modo que decisivamente influi o enriquecimento cultural da cidade (Os Guardadores do Tempo, 2007). Neste sentido, A. Santos dirige a revista Torres Cultural, onde escreve sobre personalidades oestinas: Henriques Nogueira, Maurício José da Silva, Júlio César Machado, Jaime Batalha Reis, Antero de Quental, Júlio Vieira, Leonel Trindade e Padre Joaquim Maria de Sousa. A este respeito, A. A. Sales aduz: “Alguns dos melhores trabalhos sobre temas e personalidades do concelho na imprensa local foi ele que os subscreveu”. Além disso promove inúmeras iniciativas, que culminaram em seminários e espectáculos. Nessas iniciativas participaram cerca de oitenta personalidades, vindas de todos os quadrantes políticos e culturais.


Destaque para o ‘‘Fórum de Maio’’ onde se discutiu História e Sociedade, com convidados de nomeada, entre outros, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Basílio Horta, Almeida Santos, Costa Gomes, Durão Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa. Refira-se outros exemplos, a organização de duas conferências sobre ‘‘Literatura e Resistência’’, com a presença dos escritores Luís de Sttau Monteiro e Manuel Ferreira e as primeiras Jornadas de História e Cultura Torreense, nas quais participaram cerca de trinta elementos com comunicações sobre essa temática. De facto, surgiram dele na Área da cultura, as iniciativas mais bem-sucedidas em Torres Vedras.

Organizou também o intercâmbio cultural entre municípios do Oeste ”Viagens na Nossa Terra”, com encontros nas Caldas da Rainha (1996) e Alenquer (2000). Foi director da revista Oeste Cultural (2002), onde participaram especialistas de diversas áreas do conhecimento.

Este período é dirigido politicamente pelo presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras Jacinto Leandro e pelo vereador António Carneiro. Andrade Santos e estes dois autarcas são reconhecidos como produtores, durante o século passado, de uma das etapas mais profícuas na área da cultura.

Acerca de Andrade Santos, ao rememorar a vida cultural da cidade, A. A. Sales afirma: “é uma personalidade incontornável do último quarto de século torriense”.

O Município de Torres Vedras atribuiu-lhe a Medalha de Prata de Mérito Cultural.

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ONDE O AUTOR PUBLICOU TRABALHOS E/OU QUE LHE FAZEM REFERÊNCIA

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SEARA NOVA

A FICÇÃO LITERÁRIA DE ANDRADE SANTOS

Para este texto de referência ao autor, importa desde já assinalar a extraordinária qualidade da sua ficção literária. Neste particular dedica-se aos diversos géneros da narrativa: conto, novela e romance. E ainda à não- ficção. Em nome pessoal e incluído em colectâneas totaliza quinze livros publicados. Consta no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses sendo membro, desde 1976, da Associação Portuguesa de Escritores (APE).

De não-ficção A. Santos escreveu crónicas e ensaios. Em Teoria Social vem elaborando obra com credibilidade na área da Sociologia Urbana, fruto da sua formação académica. Da sua obra documental merece lugar à parte, a narrativa Crónica de Tantos Feitos (1ª ed 1986, 2ª ed. 2005). A obra – com prefácio do tenente-coronel Vítor Alves, membro do Conselho da Revolução – relata com enorme realismo descritivo a movimentação política e social, durante o 25 de Abril, na região Oeste. Aqui, Andrade Santos desempenha o papel privilegiado de testemunha e participante.

Notáveis são também os textos que introduzem os dois volumes da autoria do fotógrafo Eduardo Gageiro sobre Torres Vedras, Viagem no Centro Histórico e Viagem no Alfazema e Choupal (2017).

Quanto à sua ficção literária, com publicação espaçada no tempo, distinguem-se duas fases: Primeira, a do Neo-Realismo, segunda, a do Realismo Mágico.

Na primeira fase literária inserem-se os contos inaugurais “Ganhadores de Pão” e “Companheiro da Noite” (1968), publicados em colectâneas. Mais tarde, em nome individual, publica Oestinos ‒ contos e novelas (1976), seguindo na esteira do movimento neo-realista, cujos expoentes máximos foram Alves Redol e Manuel da Fonseca. Pretendia-se, na época, inserir o povo como sujeito da obra literária.

Andrade Santos surge no final desse movimento, revelando uma dinâmica de realismo de vanguarda. Nesta sua obra recriam-se personagens, espaços e vivências da região Oeste de Portugal, abrangendo o tempo cronológico que dista da última guerra até aos anos 70. Embora se apresente a temática do conflito de classes na maioria das narrativas que compõem Oestinos ‒ gentílico criado pelo escritor hoje em uso na imprensa ─ entre camponeses e lavradores como no conto “No Caminho para S. Mamede”, entre operários e empresários nos contos “Os Baroubas” e “O Homem que Traja de Ganga”, evidencia-se também uma perspectiva enriquecedora e modernista de abordagem à densidade psicológica das personagens. Essa abordagem é notória em narrativas como “O Pátio”, cujas personagens são ”mais pobres que crianças sem mãe”, “ Quotidiano de uma Professora de Aldeia” onde se confessa “ que só o amor a pode salvar”, “O Vício”, no qual um jogador inveterado “ só tinha cura quando os cotovelos poisavam firmes sobre a banca do jogo”.

A obra foi “considerada pela crítica como uma das sete mais importantes da novelística portuguesa publicada em 1976”. Segundo Álvaro Pina, crítico e professor, ”Oestinos de Andrade Santos constitui uma lição. Há novos escritores atentos às lutas do nosso povo, e capazes de aprender com ele a fazer uma literatura nova”. A escritora Maria Ondina Braga acrescenta: ”Oestinos. Histórias de vidas duras, camponeses, operários, pescadores… Contos que são gritos de protesto, de acusação e de luta.

Já sobre a sua segunda fase literária, o próprio escritor num órgão da imprensa nacional, afirma: “a minha escrita sofre influência do realismo mágico latino-americano, à cabeça do qual cito Gabriel García Márquez”. Essa influência literária surge no romance Quatro Mil Luas (1994), que segundo o seu editor é uma “obra magna do realismo mágico”.

Os representantes dessa escola literária, para além de Gabriel García Márquez, são Jorge Luis Borges e Mario de Vargas Llosa, entre outros. O segredo do que se designou como Realismo Mágico reside, segundo João de Melo, na descoberta de uma “prática ficcional simples e simultaneamente deslumbrada, recorrendo aos grandes temas sociais, mas envolvendo as realidades descritas numa auréola de sonhos, crenças e rituais lendários”.

Quatro Mil Luas – em cuja epígrafe se refere a “República da Imaginação” – é uma saga prodigiosa envolvendo mais de meia centena de personagens, onde realidade e universo mágico se entrelaçam numa narrativa de enorme efabulação e fulgor discursivo. Aquando da sua publicação, a crítica literária assinalou: “despontam, com discrição e frescura, quatro mil luas no firmamento literário português” (Fernando Dacosta) e “um belo e absorvente texto narrativo (…) Andrade Santos é o imaginador e virtuoso da linguagem” (João de Melo).

Quatro Mil Luas é o único romance na Literatura Portuguesa Contemporânea, cuja acção se desenrola no Oeste, em particular na região de Torres Vedras. No ano da sua publicação foi uma das obras selecionadas para o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Já a novela Wellington Mágico (2014) que prossegue na senda da escola literária iniciada em Quatro Mil Luas, o Realismo Mágico, possui como leitmotiv as invasões francesas, nomeadamente as batalhas ocorridas na região Oeste, onde se evidencia a acção do general britânico Arthur Wellesley, mais tarde Duque de Wellington. Numa técnica de escrita evoluída, tempo, espaço, real e imaginário cruzam-se vertiginosamente numa narrativa apaixonante.

A obra deste autor possui um reconhecimento nacional, provam-no as diversas críticas em jornais e revistas, como por exemplo, O Diário (1986), Público (1994), LER (1994), História (1998) e as mais de duas dezenas de referências oriundas de críticos literários, professores, escritores, jornalistas, historiadores. Entre estes, além dos mencionados anteriormente, António Augusto Sales, João de Melo, Fernando Dacosta, Maria Ondina Braga e Álvaro Pina, acrescentaremos José Jorge Letria, Felicidade Alves, José Correia Tavares, José Vale de Figueiredo, Tereza Moura Guedes, Oliveira Melo, Leonilde Leal, Vítor Serrão e Dom Manuel Clemente.

De facto, na ficção literária de Andrade Santos é notável o extraordinário poder efabulatório e o magistral domínio da língua portuguesa.

Nota: O autor deste artigo escreve segundo a antiga ortografia

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TEXTOS DO AUTOR

WELLINGTON MÁGICO, Short Story (novela curta)

QUATRO MIL LUAS, Romance

A GALERA, Testemunho

O AUTOR ESCREVE SEGUNDO O ANTIGO ACORDO ORTOGRÁFICO

WELLINGTON MÁGICO

SHORT STORY (NOVELA CURTA)

O Presidente da Câmara Municipal recebeu o casal inglês com uma postura de comprazimento, na qual sobressaía o sorriso de ocasião. Ofereceu o sofá do seu gabinete aos dois britânicos para uma pausa que se haveria de revelar breve.

Nessa tarde tépida de Primavera, o autarca, após a conversa curta e prosaica com os visitantes, telefonou ao Dr. Salomão Andrea no sentido deste dar atenção às solicitações dos estrangeiros.

« O inglês diz que é familiar do Duque de Wellington. Quer descrições das Linhas de Torres. Procura saber como foram os combates de Wellington com os franceses. Está aqui até amanhã. Fica no hotel e sai cedo para o norte. » disse o Presidente da autarquia.

« Isso é querer muito conhecimento para tão pouco tempo. Afinal já vamos a meio do dia… » respondeu o interlocutor.

« Não nos fale em tempo, caro doutor. O senhor inventou a maquirrafia, todos sabemos que descobriu os segredos do tempo… » retorquiu o Presidente.

Após o lacónico telefonema foi ligeira a pausa, pois o casal inglês entrou na loja do Dr. Salomão acompanhado pelo chauffeur da Presidência que, mal cumpriu a sua missão de guia, acabou por se retirar.

Salomão Andrea, um septuagenário vigoroso, todos o conheciam na cidade e na região. Licenciara-se em farmácia por imposição paternal mas nunca havia exercido a profissão de farmacêutico. Possuía uma loja na zona urbana antiga e o que ele sempre quis ser foi artesão de sonhos, inventor artístico de peças de afago e doçura. Vendia, fabricadas pelas suas próprias mãos, bonecas de rosto nacarado, genuína madrepérola, que diziam mamã e papá e davam beijinhos. Ainda bonecos que mudavam de cor conforme as estações do ano e riam na terça- feira de Carnaval, chorando na sexta-feira Santa. Também produzia maquirrafias, deslumbrantes aparelhinhos onde se vislumbravam os sonhos imortais. Era um homem muito culto o Dr. Salomão.


Pela loja tinha-se acesso a um corredor onde, ao fundo, se abria uma espaçosa sala, o seu gabinete de trabalho. As paredes estavam cobertas com estantes repletas de livros, e, ao centro, impunha-se com autoridade uma comprida mesa, como bancada de oficina, onde criava as suas peças de candura. Por esse gabinete passavam, quotidianamente, os letrados do município, protagonistas de uma infindável tertúlia que tinha início pelas seis da tarde, sempre incendiada com paixões políticas. Cada um cultivava a sua especialidade cognitiva e todos reconheciam ao Dr. Salomão Andrea o seu inigualável conhecimento sobre a história do século XIX. Afirmava-se de grandiloquência tudo o que ele dizia acerca das Invasões Francesas e das Lutas Liberais.

Logo após a saída do chauffeur do Presidente da Câmara Municipal os dois britânicos apresentaram-se ao septuagenário. Tommy Wellesley disse ser Major do exército e sua mulher Marisleysis Porter, médica pediatra. Ele tinha uns olhos de um azul nímio claro, rosto abolachado, cabelo louro, um corpo cheio, quase gordo, aparentando uma idade que circundava os quarenta anos.

O Dr. Salomão Andrea, ao ouvi-lo pronunciar o sobrenome, esboçou um leve sorriso, exclamando:

« Ah, o Duque de Wellington era assim mesmo, Wellesley… General Arthur Wellesley. »

« Estou aqui na cidade, com a minha mulher, até amanhã. » adiantou o inglês « No meu país admiramos muito a obra notável do General, as Linhas de Torres. Gostaria de conhecer detalhes desses Fortes de defesa e das batalhas da Roliça e do Vimeiro, onde o meu familiar venceu os franceses. Venho também para ver livros, manuscritos, quadros, gravuras, documentos que evoquem esses acontecimentos. »

O artesão de sonhos conversou largos minutos com o inglês mas notou que este vinha sôfrego por deglutir, o mais breve possível, o açúcar ácido das emoções militares. E foi isso que o predispôs a responder, de imediato, às solicitações do visitante. Elucidou-o:

« Vamos ao Museu e à Biblioteca Municipal. No Museu existe uma sala com materiais que, estou certo, gostará de observar. »

O Dr. Salomão e o casal britânico saíram, então, da loja, dirigindo-se ao Museu Municipal situado a curta distância dali.

Tommy Wellesley iniciou, assim, confiante e desejoso de surpresas, a visita aos materiais expostos na sala do Museu. Aqui havia um mundo de objectos, utensílios, capaz de o deslumbrar.

Duque de Wellington

Óleo de Francisco de Goya National Gallery, Londres


Com atenção e preocupado em reter a minúcia, lentamente foi apreciando. Uma gravura a cobre colorida da batalha do Vimeiro, a aquatinta do Vale da Maceira, sacos de metralha, balas de canhão em ferro, sabres de oficiais de cavalaria ligeira e de dragões, chumbeiros, moedas inglesas e francesas, botões de farda, baioneta de anel, arcabuz, pistolas de arção, cartas manuscritas e actas da Câmara Municipal, a litogravura de um mapa das campanhas do General Wellesley, várias peças em loiça figurando oficiais e soldados.

O Major inglês, com o septuagenário a seu lado dando-lhe as explicações que ele solicitava, ia avançando num exame aos objectos expostos. E fazia isso como se cumprisse uma missão de reconhecimento militar. Aferia os materiais com os seus conhecimentos académicos da arte de guerrear. O acumular de toda essa observação acrescentava-lhe mais entusiasmo e, por vezes, maior espanto. Foi, assim, que chegou ao bufete onde os Generais Wellesley e Kellermann, em representação dos exércitos inglês e francês, assinaram o acordo do cessar-fogo no Vimeiro. Acordo que daria origem à Convenção de Sintra para a retirada das tropas francesas de Portugal.

Chegados ao bufete, o Major deslizou a palma da mão direita pelo tampo da mesa. Foi um gesto puro e firme, nada pueril, o suficiente para que o seu interlocutor lhe notasse nos olhos o brilho que incendeia a face gloriosa dos vencedores.

Salomão Andrea não se conteve. Expressou:

« Foi nesta mesa, senhor Major, que se iniciou a queda do império napoleónico. Consumaram-se, aqui, a glória da Inglaterra e o pundonor de Portugal ! »

O inglês endireitou o tronco, levantou a cabeça, deu ao corpo o jeito que a fleuma exige a um britânico. Estava, agora, de frente para o Dr. Salomão. Os dois trocaram, então, um olhar profundo, sob o domínio de um silêncio inquietante. Era mel e sal o mar desse silêncio, e foi o Major que o temperou ao exclamar:

« Não nos esqueçamos, doutor, que houve sempre cumprimento e honra na aliança anglo-lusa. »

« No discurso. » retorquiu o artesão de sonhos « Na prática histórica isso não tem sido assim… Mesmo neste caso, mal os franceses se retiraram, vocês quiseram-nos colonizar. »

Riram-se e Marisleysis, atenta, acompanhou os sorrisos.

A visita ao Museu demorou cerca de uma hora. Seguiram, depois, para a Biblioteca Municipal, a curta distância dali. Já no interior, acompanhados pela floresta de conhecimento que acalenta a paixão de tantos livros abraçados, o septuagenário continuou a acender, ao militar inglês, a luz surpreendente da História. Apresentou-lhe, desta vez, manuscritos, revistas e livros envolvendo, referenciando, a realidade histórica local da época das Invasões.

O Major até aí mostrara-se expansivo, fazendo perguntas, adiantando opiniões, exprimindo entusiasmo e mesmo emoção face ao material que observava. O Dr. Salomão chegou a pensar que o militar inglês violara o seu próprio carácter quando, no Museu, por um só instante quis apresentar-se fleumático. Via nele mais um sonhador que, com facilidade, os materiais expostos o levariam aos locais onde haviam sido protagonistas dos acontecimentos. E pensou, ainda, que Tommy Wellesley, sendo um sonhador, seria um potencial utilizador privilegiado da maquirrafia. Este prodigioso aparelho de narrar acontecimentos através das imagens e o Major estavam feitos um para o outro.

Ao contrário do marido, Marisleysis Porter acompanhava a peregrinagem documental do militar empregando poucas, quase nenhumas, observações. Possuía um comportamento discreto, reservado. As poucas palavras que, até então, havia pronunciado foram o suficiente para que o artesão de sonhos tivesse reparado no seu sotaque tipicamente londrino. Mas reparou, também, no seu porte corporal de uma elegância que se afirmava singular. Ajudava a isso a compleição física. Alta, magra, uns cabelos bem negros com madeixa sensual até ao mesocrânio, os olhos de tons neutros, indecifráveis, cruzados entre a cinza, o berilo e a esmeralda. Olhando-lhe a face ninguém lhe daria mais que quarenta anos.

Passaram por uma sala onde se encontrava um enorme políptico cujo tema se dirigia às Invasões Francesas. No painel central, um expressivo quadro idealizava a batalha do Vimeiro. De seguida estacionaram num corredor, aí se enfileiravam quadros, gravuras com episódios da história local. Uma delas retratava o Duque de Wellington a cavalo, um grande plano.

Tommy Wellesley penetrou o olhar nessa gravura e no semblante romperam-lhe traços de comoção. O General estava ali na sua frente, num porte tão soberbo, com tamanho poder, que o Major não se conteve e disse:

« Há neste par um tumulto epopeico. »

Salomão Andrea achou que superavam de enternecimento a voz e o olhar do militar inglês referindo-se ao familiar e sua montada. Procurou informá-lo:

Duque de Wellington em pose equestre

Óleo de Francisco de Goya
Apsley House, Londres

« Foi assim que o Duque de Wellington atravessou o Oeste português quando entrou no meu país pela Figueira da Foz. »

« Como eu gostaria de o ter acompanhado nessa jornada… » exprimiu o inglês com entusiasmo exaltante.

O septuagenário convenceu-se, por fim, muito mais que de um profissional castrense, aquele entusiasmo, aquele sonho, seria de um diletante. Assim, não hesitou, chegara o momento exacto para lhe facultar a maquirrafia.

Nesse entendimento, retirou do bolso do casaco o prodigioso aparelho, entregando-o ao Major. Expressou:

« Se quer observar essa jornada e acompanhar o General pode fazê-lo agora mesmo, através da maquirrafia. »

Tommy Wellesley tinha, agora, em seu poder, a maravilhosa máquina. Sorriu para a mulher e frisou o sobrolho, mostrando, com isso, alguma incredulidade, enquanto o inventor artístico de peças de afago e doçura lhe exemplificava o modo de manusear o aparelho. A maquirrafia era um utensílio cilíndrico cuja aparência se aproximava da luneta. Dentro, informava o exemplificador, havia dezenas de papelinhos multicores que deveriam ser agitados, operando, depois, uma célula opticocerebral.

O inglês agitou bem o aparelho, levou-o ao olho direito e esperou que a célula opticocerebral desencadeasse a explosão das imagens.

Não demorou a aparecer a realidade que queria observar. O mágico aparelho deu-lhe as imagens da esquadra inglesa navegando na costa de Portugal, mesmo defronte da Figueira da Foz. Via o lombo prateado das tainhas reflectir o sol quando surgiam, num bailado exaltante, à tona das águas no estuário do Mondego. Via os rostos da soldadesca a ressumbrar, batidos pelo sol ardente dessa manhã de 5 de Agosto de 1808. Uma esquadra poderosa, dezenas de navios transportando três contingentes, cada um comandado pelos Generais Arthur Wellesley e Spencer e pelo Almirante John Moore.

Marisleysis Porter e o Dr. Salomão ouviram-no exclamar num tom elevado, É ele, o General ! As imagens muito nítidas desenrolavam-se, como clarões, na maquirrafia, vendo agora o seu familiar, Duque de Wellington, no comando chefe das tropas inglesas que desembarcavam na praia de Lavos.


Os soldados, às centenas, iam ocupando o areal. E nesse mesmo dia o comandante britânico conferenciou com o General Bernardim Freire, que comandava o exército português reunido em Coimbra, entregando-lhe uma quantidade considerável de armamento.

Há muitos meses que os franceses ocupavam Portugal. Napoleão enviara o seu General Junot, como Comandante Chefe e este encontrava-se em Lisboa, com um corpulento exército. Sacrificava o país e controlava a capital. D.João VI havia debandado para o Brasil, levando a corte mais próxima, acompanhado de ouro, pratas, jóias, obras de arte, o mais valioso que pôde levar consigo.

Por esta altura Junot ordenara ao General Loison que avançasse com um contingente militar para a região de Leiria ao encontro das tropas anglo-lusas.

Tommy Wellesley ainda não tinha procurado observar, através da maquirrafia, todo o caudal de vitupérios que os franceses exerciam ao povo português. Por enquanto a magia do aparelho mostrava-lhe as acções do seu familiar. O General seguia, agora, no seu cavalo, via-o na dianteira do exército inglês. Nas conversações com Bernardim Freire decidiram atravessar o Oeste, descendo até Lisboa, com as tropas britânicas junto à costa atlântica e as portuguesas mais pelo interior.

A 14 de Agosto os dois exércitos aliados juntam-se em Alcobaça. E é o Duque de Wellington que toma o comando dessas forças armadas.

O Major inglês retirou a maquirrafia do olho direito, descansando esse órgão visual. Aproveitou para dizer:

« É tão prodigiosa esta maquineta como assombroso é o carisma do General. Vejo que ele tem, em simultâneo, um carácter clássico e hodierno. »

Salomão Andrea interpôs:

« Um General eficaz tem que ser um guerreiro omnímodo. »

A mulher do Major continuou como até aí, reservada, não disse uma só palavra. Mantinha-se, no entanto, peremptoriamente, elegante e bonita.

O militar inglês agitou bem a maquirrafia e levou-a, de novo, ao olho direito. Voltou a Agosto de 1808, desta vez para observar as tácticas e estratégias militares dos franceses.

De momento vislumbrava o Comandante Chefe Junot muito preocupado em Lisboa.


O General Loison resguardava-se, não quis enfrentar sozinho os aliados e recuou mais para sul, pedindo reforços a Junot. Este tomou as disposições necessárias para impedir o avanço do exército anglo-luso. Assim, ordenou que os Generais Delaborde e Thomieres, comandando dois contingentes, se juntem a Loison para enfrentar o exército aliado na Roliça, próximo do Bombarral.

O Major observava, com um misto de excitação e espanto, o clarão multitudinário da batalha ocorrida nessa manhã sangrenta de 17 de Agosto. Roliça tornava-se um cemitério para os franceses, seiscentos súbditos de Napoleão deixavam os corpos inertes no território irrevogável da morte.

Tommy Wellesley via os cadáveres com rostos sulcados pelos gritos da disforia, ainda tinham as lágrimas quentes cobrindo os olhos vidrados. Transpareciam o instante supremo da morte, como se tivessem deglutido pedaços de noz-vómica e experimentado o que vem a seguir, o terror ácido da estricnina.

O exército francês, batido, recua mais para sul. E Junot resolve sair de Lisboa com o resto das tropas para se juntar aos seus Generais, reunindo todo o exército em Torres Vedras.

O Comandante Chefe gaulês entrou nesta vila com o seu Estado-Maior pelas três da tarde do dia 18 e chamou o Meirinho que governava a Comarca. Nada prolixo, utilizou apenas as palavras necessárias, ordenando que lhe fornecesse alojamentos para os oficiais, além de víveres e forragens em quantidade suficiente para abastecer o exército. O Meirinho teve que executar tais ordens, as circunstâncias não lhe permitiam atitudes de negação.

O Major inglês apurou a célula opticocerebral da maquirrafia e foi observar o que se passava às portas da vila. Num instante começou a abrir a boca, admirado com o que via. Exprimiu:

« São milhares de soldados franceses numa várzea ao longo de um rio. »

O artesão de sonhos retorquiu, com ênfase:

« Os registos apontam para catorze mil ! Foram pródigos em malfeitorias… »

As imagens da maquirrafia transportavam o inglês para a povoação ocupada. Junot colocara segurança nas entradas da vila, não autorizando passagens sem guias de identificação. Requisitou alimentos à população, ameaçando de morte quem não colaborasse. Montou um patíbulo no largo principal e, como estratégia de intimidação e exemplo, foram executados dois mendigos por suspeita de serem espiões disfarçados a trabalhar para o exército britânico. Na manhã do dia seguinte um grupo de soldados gauleses assaltou o Convento dos Religiosos Arrábidos do Barro, roubando peças de prata, violando o sacrário.


Também algumas casas de pavimento térreo onde se encontravam mercadorias foram assaltadas e incendiadas. E neste clima tétrico, o pároco local, Madeira Torres, esforçava-se por convencer o Estado – Maior do exército ocupante a conter a sua pérfida repressão sobre os habitantes. Mas a preocupação do Estado-Maior, nesse momento, estava voltada para o exército aliado que se aproximava. Na tarde do dia 20 Junot reuniu os seus Generais e decide tomar a ofensiva, partindo com as tropas ao encontro dos anglo-lusos. Seguiu pela estrada da Lourinhã.

Tommy Wellesley fez uma pausa, retirando a maquirrafia do olho direito. Com a voz presa na angústia, exclamou:

« Os franceses foram bárbaros na ocupação desta vila. »

« Todos os exércitos são bárbaros. Em simbolismo são a face satânica do poder. » advertiu Salomão Andrea « Aqui, escolheram o Vimeiro para dirimir a sua barbárie. »

O Major voltou à maquirrafia, à crueldade das imagens. Agora dirigindo a célula opticocerebral para as tropas britânicas. O Duque de Wellington, no comando do exército aliado, havia tomado posição no Vimeiro para proteger o contingente do Almirante John Moore que desembarcava em Porto Novo. Nos campos do Vimeiro os aliados reuniam 18.000 soldados, 2.600 eram portugueses. Pelas sete horas da manhã do dia 21 a hoste anglo-lusa observou enormes nuvens de poeira, cada vez mais próximas. Junot e os seus 14.000 soldados, enlevados pelos cânticos guerreiros, avançavam para a explosão do sangue, procurando reparar o ultraje da Roliça. Às dez horas as vanguardas dos dois exércitos encontraram-se. Ao sol de Agosto a glória e a morte estão prontas para o festim da loucura. Há a guleima do sangue. Inalienável é o corpo de cada soldado. Então, várias colunas cerradas da infantaria gaulesa iniciam o ataque.

Tommy Wellesley observava, com ansiedade, o General seu familiar. Este cavalgava, posicionando-se no campo de batalha, ágil, soberbo, poderoso em carisma e autoridade. Querendo travar o ataque gaulês, o General Arthur Wellesley ordenou que o regimento 50 abrisse fogo com uma descarga geral arrasadora, precipitando-se de imediato, à baioneta, sobre a infantaria de Junot. Não demorou que a cavalaria de ambos os lados se envolvesse no turbilhão da contenda. Apareceu, clarividente, o matiz das fardas. O esforço pela sobrevivência tornou-se inumano. Rompeu, flamante, o discurso da dor, trágico e épico no destino daqueles homens.

Batalha do Vimeiro

Óleo de Óscar Comenda
Museu Municipal Leonel Trindade, Torres Vedras


E às dezenas, às centenas, os corpos tombavam, partindo para o celeste e inaudito sopro da morte. Muitos, muitos ficavam estropiados, rastejando de dor, de aflição, pedindo água porque nas gargantas corria-lhes um rio de sal. Eram as lágrimas marinhas de Napoleão. Ao meio-dia, Junot e os seus Generais, com o exército em desordem, decidem abandonar o campo de luta retirando-se para Torres Vedras. Em duas horas tinham perdido 2.000 homens e 13 canhões. Nessa tarde, postos perante a derrota, pediram um armistício aos aliados.

O Major inglês estava atónito com tanto sofrimento, tamanha mortandade. Pensou que, de momento sobre guerras, deveria ficar por ali. Pôs fim às imagens da maquirrafia e convidou o Dr. Salomão para jantar no hotel.

O casal britânico e o artesão de sonhos saíram da Biblioteca Municipal. Anoitecia, um veludo crepuscular envolvera a cidade, embora, ao longe, o horizonte ainda teimasse nos tons violeta e gualde mortiço. Caminharam até ao hotel, ali próximo.

Ao jantar o inglês quis falar com o septuagenário acerca das Linhas de Torres, a grande obra de defesa militar idealizada pelo seu familiar, Duque de Wellington. Durante a refeição Marisleysis Porter continuou a mostrar-se discreta no emprego das palavras, o que a afirmava, embora de traço natural, seria o glamour da sua elegância.

Salomão Andrea falou da primeira, e a mais importante, das Linhas que tinham por função impedir que um exército inimigo atingisse Lisboa. Começara a ser construída em 1809, a partir de Alhandra, junto ao Tejo, corria a sul de Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agraço e terminava em Torres Vedras, na foz do Sizandro. Constituíam-na inúmeros Fortes colocados nos cabeços dos montes.

Tommy Wellesley, ante a magia, a grandiloquência que atravessava a narrativa do artesão de sonhos, não resistiu e voltou a mostrar paixão pelas imagens da maquirrafia. No fim do jantar agitou a maquinazinha e foi observar o General, em 1809, projectando, comandando a ímpar obra. Viu milhares de camponeses e artífices de todo o Oeste, numa gesta heróica, a edificar os Fortes. Admirou a grandeza do mais importante de todos, o de S. Vicente, e os que estavam próximo deste, Olheiros, Forca, S. João, Ordasqueira. Apreciou o Capitão do Real Corpo de Engenharia, Luis Sousa Bellegarde, que se mantinha incansável a dirigir os trabalhadores e estes, enérgicos, cultivando um germano ímpeto patriótico.


Calceteiros, pedreiros, carpinteiros executavam as suas artes com o virtuosismo próprio de componentes de uma orquestra da edificação.

O Major inglês observava, agora, um renque de inextinguíveis imagens do Forte de S. Vicente. Mais parecia um inventário de material militar indispensável a um Reduto.

Vertiginosamente apareciam e desapareciam obuses de cinco polegadas e meia, granadas de mão, granadas de obus, armões, reparos de campanha, cartuxos de infantaria, pederneiras, tranquiletes, canhoeiras de calibre seis, nove e doze, paióis volantes, lemes de conteira, merelim branco e cordas de esparto, tirantes de cassonetes e sempre, sempre, a magnitude dos fossos e muralhados como amantes indivisíveis. Por fim, a imponência real da primeira Linha de Torres com todos os Fortes a proteger Lisboa.

Tinham saído da sala de refeições e, no bar do hotel, haviam continuado a conversar, sem nitência, despreocupados. Deixavam que as palavras ornassem a mansidão do tempo nocturno. Já no fim da conversa, Tommy Wellesley, numa derradeira observação às imagens da maquirrafia, ainda enxergou o hórrido exército de 65.000 soldados franceses, comandado pelo Marechal Massena, na terceira invasão, durante o Estio e o Outono de 1810. Um exército que estacionou algumas semanas em frente dessa primeira Linha e, sentindo-se impotente para a ultrapassar, acabou por se retirar no meado de Novembro, voltando a França. Massena não foi além de um Marechal estulto, comparado com o Duque de Wellington, ouviram o inglês murmurar.

Passava da meia-noite quando se despediram. O casal britânico convidou o Dr. Salomão para uma estadia na sua casa em Londres. E o inventor artístico de peças de afago e doçura ofereceu-lhes uma maquirrafia, onde se vislumbravam os sonhos imortais, uma boneca que dava beijinhos e um boneco que ria na terça-feira de Carnaval, chorando na sexta-feira Santa.

Tommy Wellesley e Marisleysis Porter subiram para o quarto, no último andar do hotel. O Major nem se sentia fatigado, como era sonhador o dia fora mesmo a seu jeito, tudo lhe pareceu normal. A mulher, porém, na sua interioridade com vínculo tão racional, interrogava-se acerca do que estava a viver.

Já no quarto, a pediatra chegou-se à janela para contemplar a noite oestina e logo se surpreendeu. Ao longe, na escuridão nocturna, como se fosse nuvem feérica, via um castelo iluminado que maravilhava com seu torreão fulgente. Olhou, de seguida, para os dois bonecos que haviam sido colocados no tampo da cómoda. A boneca franziu os lábios, enviando-lhe beijinhos.

Deitaram-se. E Marisleysis, ainda na sua íntima incerteza, acabou por interrogar:

« Tudo isto é estranho. Não achas que estamos num lugar perdido no sonho, num tempo irreal, numa cidade encantada?… »

O marido cofiou-lhe os cabelos, num gesto terno. Retorquiu:

« Não vejo nisto algo de novo. O universo todo ele é um mistério, um tempo, um espaço de sonho e encantamento.»

Abraçaram-se, esquecendo-se do mundo.

Lá fora, com a face coberta pela máscara da inocência, a cidade encantada dormia.

QUATRO MIL LUAS

EXTRACTO DO ROMANCE ‘‘QUATRO MIL LUAS’’

O Capitão-de-Mar-e-Guerra, Sacadura Zora, encomendava aos garotos barquinhos de papel, instrumentos mágicos que ele considerava preciosos para os seus discursos sobre a ponte de S. Miguel. Novas e Velhas, o profeta que corria o país explicando a vida da Terra pela Deriva dos Ciclos e anunciando para Portugal uma futura República da Imaginação, aparecia em Torres nos fins de Outubro, e, Sacadura Zora, como seu representante no Oeste, preparava já esse acontecimento invulgar. Talvez por isso os discursos do Capitão eram agora cada vez mais exaltados e longos.

Nesse domingo à tarde, Túlio Panta e os amigos, como era habitual, foram junto ao caminho-de-ferro deitar os barquinhos ao Sizandro. E lá iam eles, rio abaixo, às dezenas, aprumados no veio das águas.

O Capitão-de-Mar-e-Guerra estava já sobre a ponte, e alguma gente ali se encontrava para ouvir as suas palavras, toda uma vaga loquaz acerca dos Descobrimentos e da sonhada República da Imaginação que um dia se instalaria na terra portuguesa segundo as profecias de Novas e Velhas.

Sacadura Zora permanecia tenso, com as mãos bem agarradas ao corrimão que encimava o gradeamento da ponte. Estava hirto e inflexível como se estivesse na amurada de um navio, o olhar perdido na liquidez do rio. E quando toda a gente começou a ver o primeiro barquinho de papel a apontar ao longe, no veio das águas, o oficial da Marinha reformado estremeceu. Depois abriu-se ao relato, e aquilo era um cântico épico, tinha uma chama barroca, e desenvolvia-se torrencial, veloz como um cavalo selvagem. Discursava: lá vêm as caravelas dos nossos feitos marítimos, trazem o Infante Dom Henrique filho de Dom João primeiro, Ceuta na costa africana, o começo do Império, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, ilha do Porto Santo, povoamento da Madeira, para além do Bojador passou o navegante Gil Eanes, muitos sustos muitos custos, custódia de Belém, naveta em prata repuxada, casula, dalmática, capa de asperges, cruz relicário, cálice e patena, turíbulo, Nuno Gonçalves os painéis de São Vicente de Fora, Vasco Fernandes criando a Adoração dos Reis Magos,

Jesus no Horto, Pentecostes, São Teotónio pintado em madeira de carvalho, São Vicente esculpido em pedra calcária, o Mestre das Alhadas e o Arcanjo São Miguel, São Francisco recebendo os estigmas, a Virgem entronizada com o Menino, em mil quatrocentos e quarenta e cinco Álvaro Fernandes chega ao cabo dos Mastros, Gomes Eanes de Zurara e a Crónica da Conquista da Guiné, Fernão Pó descobre os Camarões, Diogo Cão atinge o rio Congo, as tapeçarias de Pastrana encomendadas por Dom Afonso quinto, o Assalto a Arzila em lã e seda, a bíblia dos Jerónimos, salvas com motivos de inspiração africana, Mediações e Homilias do Cardeal Infante Dom Henrique, Lopo Gonçalves e Rui Sequeira descobrem o rio Gabão e chegam ao Cabo de Santa Catarina, Dom Afonso quinto concede o comércio e as pescas da Guiné ao príncipe herdeiro Dom João, Pedro Barcelos e João Fernandes Lavrador exploram a costa da Gronelândia, Terra do Lavrador nas cartas náuticas da época, Leis e Provisões que El-Rei Dom Sebastião nosso senhor fez depois de começar a governar, a escrita crua de Diogo do Couto, João de Barros as Décadas, Sentenças do primeiro Conde de Vimioso, o Testamento de Rui de Pina, Jerónimo Bosch e as Tentações de Santo Antão…

Ilustração
JOÃO SARZEDAS

O Capitão-de-Mar-e-Guerra desfiava num galope endiabrado o discurso das Descobertas, cruzando nomes com factos, emparelhando coisas com datas sem qualquer preocupação cronológica. Ia tão adiante, e, depois, vinha muito atrás, juntando acontecimentos que distavam, por vezes, um ou dois séculos, tudo num relato automático, desprendendo as palavras conforme se sucediam os relâmpagos das ideias. O tempo e o espaço eram dominados pela sua perícia verbal. E as palavras iam caindo da ponte uma a uma, caíam soltas para os barquinhos de papel. Barquinhos que corriam pelo Sizandro até encontrarem o mar, navegando depois no Atlântico e em todos os oceanos deste mundo, levando aos portugueses emigrados essas palavras onde havia o cheiro da saudade e a raiz telúrica da terra-mãe, Pátria querida.

Palavras cheias de gente, cristalinas, palavras feitas com a história dum povo. Letras geradas no coração deste marinheiro, Sacadura Zora, paridas na sua garganta de tenor angélico, filho de todas as galáxias, Em mil quatrocentos e oitenta e dois Diogo de Azambuja dá início à construção da fortaleza de São Jorge da Mina, o gomil de prata lisa, cibório, e a caldeirinha de água benta, Soeiro da Costa alcança o promontório das Três Pontas, Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança e desembarca na angra de São Brás, as naus de Vasco da Gama na sua viagem à Índia, São Rafael, São Gabriel e Bérrio, o padrão do cabo Negro colocado por Diogo Cão, Brasil, Terra de Vera Cruz descoberta por Pedro Álvares Cabral, e Pêro Vaz de Caminha escrivão a bordo relata o feito em carta ao rei Dom Manuel, o Preste João, Cristóvão de Mendonça chega ao continente australiano, Afonso de Paiva na corte etíope levando cartas do rei, Pêro da Covilhã recolhe informações sobre o comércio e a navegação no Índico, Damião de Góis retratado por Albrecht Dürer, a Carta Náutica do Atlântico de Sebastião Lopes, o Atlas de Fernão Vaz Dourado, Atlas Náutico Português de Lopo Homem, e o Planisfério de Domingos Teixeira, Livro de Toda a Costa do Brasil, Albernaz, Advertência de Navegantes, o Livro de Traças de Carpintaria, o Livro da Arte da Guerra do Mar, Lázaro Luís e o seu Livro de Todo o Universo, Livro das Fortalezas do Reino, astrolábio náutico, Duarte Pacheco Pereira e Esmeraldo de Situ Orbis, real branco e meio real, dez reais e três reais, o ceitil com o escudo das quinas assente sobre a cruz de Avis cantonada por quatro castelos, o ceitil arábico, chinfrão, dobra, e o vintém, o meio português de prata, o cinquinho com as quinas soltas no centro, meio tostão de cruz de São Jorge, e o leal de prata de Dom Duarte primeiro, escudo de ouro de Dom Afonso quinto, justo de ouro de Dom João segundo, o cruzado de ouro, barbuda, sinete, e o São Vicente de ouro do rei Dom Sebastião, cruzado e meio cruzado, espadim de ouro, tostão de cruz de Cristo, dinheiro, soldo, e bastardo, cruzado calvário, cepaica, pardal São Tomé, bazaruco, tanga e xerafim, a décima expedição marítima à Índia capitaneada por Diogo Lopes de Sequeira, chegada a Sumatra e a Malaca, conquista de Goa por Afonso de Albuquerque, Jorge Álvares alcança a China a foz do rio Cantão, João de Lisboa descobre o rio da Prata na costa da América do Sul, o Regimento Náutico, Manuel de Figueiredo faz exame de pilotos com os roteiros de Portugal para o Brasil, Rio da Prata, Guiné e Índia de Portugal, o Livro da Marinharia, Prática da Arte de Navegar, Tábuas do Roteiro de Goa e Diu e do Mar Roxo,

Roteiro de Navegação e Carreira da Índia, Plano da Cidade de Macau, e Livro da Descrição de todas as Fortalezas, João de Santarém e Pêro Escobar descobrem as ilhas de São Tomé, Príncipe e Ano Bom, morte do Infante Dom Henrique a treze de Novembro de mil quatrocentos e sessenta, Afonso Baldaia navega até à Pedra da Galé, o Pergaminho do Tratado de Tordesilhas, as cartas de Afonso de Albuquerque ao rei Dom Manuel, os polvorinhos afro-portugueses, baú luso-oriental, as cadeiras de Mombaça, oratório, o tamborete baixo, o pano de armas, e o Menino Jesus Bom-Pastor indo-português, açafate, contador, os biombos, as talhas, garrafa de peregrino, oratório com árvore de jesse, a catequese e a vida de São Francisco Xavier, Alcácer-Quibir, o retrato de Dom Sebastião, as obras de arte, os quadros do Banquete dos Monarcas, dos Santos Mártires de Lisboa, da Apresentação da Cabeça de São João Batista, os retratos de Dom João primeiro, Infante Dom Fernando, Dona Isabel de Portugal Duquesa de Borgonha, e por mil e quinhentos e quarenta e três os portugueses chegam ao Japão, a tarja carregada com a esfera armilar, primeira viagem de Gaspar Corte-Real à Gronelândia, terceira expedição marítima à Índia capitaneada por João da Nova, a Genealogia da Casa Real Portuguesa, o Livro das Horas da Imperatriz Dona Leonor, arqueta de noivado, cadeira de tesoura, o casamento de Dom Manuel primeiro, adaga de mão esquerda, punhal compasso, as armas brancas, arandela e foice de guerra, o machado de comando, espada bastarda, espada de guarda de vela, e de guarda de concha, espada de guardas rectas, a armadura de torneio, armadura de lagosta, capacete e borguinhota, o elmete fechado, e o elmo funerário, Nuno Tristão navega até ao cabo Branco e descobre a ilha de Arguim, e Cadamosto veneziano ao serviço do Infante alcança os rios da Guiné, as espadas de guarnição desmontável e guarnição à portuguesa, a espada valone e a zuloaga, o rapier de concha e o de copo de margarida, escarcela de armadura, morrião, e resguardo quebra-lanças, Garcia de Orta curava doentes às portas da morte escrevendo o livro Colóquios dos Simples e Drogas Medicinais da Índia, lindas as dalmáticas de seda bordadas a fio de papel dourado e as casulas de cetim com sebastos e orlas de veludo, as armas de fogo e arcobalísticas, canhão pedreiro, canhão de salvas, colubrina bastarda, o órgão essa mortal boca de fogo múltiplo equipado com catorze canos ligados a três cassoletas, o quadrante de artilharia, o falconete bastardo, trom, sirpe, e o canhão de mão, a carabina de roda, mosquete de mecha, e os fechos de Anselmo e chenapan…

O Capitão-de-Mar-e-Guerra silenciou-se por breve instante, retirou a atenção visual dos barquinhos de papel e elevou o olhar até à suprema lonjura do céu. Parecia ir ao encontro do nadir, aí onde a mãe-natureza, no seu útero, cumpre a gestação imorredoura do tempo, onde é total e efémero o conhecimento, e se acasalam o possível e o impossível, o princípio e o fim, a morte e a vida. O real e o sonho.

A GALERA

TESTEMUNHO

A galera do Clemente é um fenómeno apaixonante do mundo fantástico, mágico, da minha cidade natal, Torres Vedras. Cidade a que eu, no universo mítico da toponímia, por vezes utilizo a grafia Arandis ou mesmo Nova Arandis. A galera do Clemente, como assim era conhecida e se encontra registada no vocabulário da oralidade local, pertence à estirpe de tudo aquilo que o Criador entende transferir para a eternidade.

Durante décadas, até finais dos anos sessenta do século passado, a galera foi um brinquedo de espanto para os infanto-juvenis e representou o poder emocionante do trabalho para o grupo etário dos adultos.

Três cavalos (um branco, ao centro, ladeando dois castanhos), belos, perfeitos, quanto buriladas estátuas gregas, puxavam a comprida carroça de quatro robustas rodas. O cocheiro, personagem saída da banda desenhada, na fronteira do humano com o super-homem, mostrava–se majestoso em perícia e era exímio conhecedor de árduos trajectos. Estalava o chicote, num bramido cauteloso, sem atingir o dorso dos animais, conduzindo estes como queria e levando-os onde desejava. Os domadores de cavalos, artistas na pista do grande Circo Mariano, tinham muito que aprender com ele.

A galera do Clemente viera a este mundo para cumprir a mais nobre das missões: Dar pão. Da moagem para a Estação de caminho-de-ferro, desta para a moagem, anos a fio, infindáveis dias nessas viagens rutilantes, transportando sacas de cereal e farinha. Como formiga meã cirandando no carreiro, a laboriosa galera não parava. Em seu redor, a luta bárbara dos homens, de corpo hercúleo, no doloroso carrego das pesadas sacas. E, sempre, a viagem triunfal pelas ruas empedradas. Sim, porque a galera da minha Arandis impunha o seu estatuto e garantia que houvesse por ela um respeito unânime. Ninguém se atrevia a diminuir-lhe o poder. Possuía um inaudito poder. Quando passava, oscilavam as pedras da calçada, estremeciam as portas das lojas comerciais. A galera a circular era um sismo abençoado, um trovão divino. Todos lhe tinham uma deferência religiosa. Ia ali a procissão do trabalho, um altar sagrado, guardando as hóstias da sobrevivência, o pão que alimentava a comunidade.


Ao vê-la passar, existia uma alegria infantil nos olhos de todos e, simultaneamente, um silêncio sepulcral na boca de cada um. A passar, ela marcava o instante supremo. Efémero momento em que o mundo parava. Nesse instante só o rumor cósmico da galera, um ruído que abafava tudo. Tudo.

Os três cavalos, lindos, imponentes, poderiam, sem favor, pertencer à poesia dos aedos. Vindos da Estação, entravam no Largo de S.Pedro com um trote impecavelmente acertado, pisando com garbo, detendo uma elegância álacre que seduzia as pessoas. Eles próprios criavam esse jogo do fascínio, queriam a atenção dos olhares humanos. O largo, para eles, seria o palco que lhes dava autoestima, a arena nocturna do Campo Pequeno. Cavalos lindos. Mas garanto-vos, porém, que nenhum deles quereria ter sido o cavalo de Napoleão. Não eram cavalos de impérios e guerras, eram, só, cavalos de pão.

A galera do Clemente há muito que deixou a só-realidade. Ela tem história suficiente para ser contada e cantada como lenda. O seu conteúdo existencial possui qualidade mítica. Estão nela as grandezas ética do social e estética de toda a figuração do belo que a envolve.

Ilustração

DAVID CARA-NOVA

E sempre que estas duas grandezas se abraçam, num destino romântico, o real dilui-se. Este eleva-se ao patamar superior do fantástico, mágico, mítico, lendário.


Perfilho, em absoluto, a expressão de um dos meus cineastas de eleição, John Ford “ Logo que a realidade seja ultrapassada pela lenda, guarde-se a realidade e publique-se a lenda.

A galera do Clemente estabelece um universo mitológico que daria, sem favor, para Peter Seeger, Johnny Cash, ou Bob Dylan comporem grandes canções folk. Tal qual a uterina força existente na Sinfonia Do Novo Mundo de Dvorak, que escolhi como fundo musical para a criação deste texto, se adapta à narrativa da lendária galera da minha cidade natal.

Ainda hoje, e sempre, os cavalos lindos, agora ápodes, portanto já imperecivelmente alados, vêm voar, durante a noite, nos céus plácidos da minha atlântica Arandis. Puxam a comprida carroça, sobrevoando o casario como um zeppelin. Lá estão o cocheiro e os carregadores de sacas, homens de corpo hercúleo. Continuam a transportar o cereal, a farinha. Sagrado pão. São Cristos humanos levando a salvação ao peito atrido dos deserdados.

E a galera continua a voar na noite. Na noite de todos os séculos e séculos vem, religiosamente, visitar-nos. Atrás dela, a acompanhá-la, vem um cortejo infindável de centenas, mais centenas, milhares de magnânimas almas. As almas dos que aqui viveram desde que esta terra, este lugar se começou a edificar, até agora, esplendorosa cidade. São os nossos mortos. Todos. Sem excepção. Um colectivo que me comove pela exemplaridade da sua acção de congregar, pela consciência que tem da sua unidade fraterna. Uma procissão que vem do além. Aí onde todos se purificaram, se perdoaram das ofensas, maus tratos, maldades que na vida terrena fizeram uns aos outros. Comovo-me vê-las, essas almas, os nossos mortos irmanados num mútuo perdão, na absoluta absolvição. Só a morte lhes deu a claridade luminosa da inteligência. Só a morte lhes trouxe o fermento cognitivo, ajudando-os a entender que nos horizontes celestes, no além, serão todos iguais. Não se usufruirá de privilégios, acabar-se-á a luxúria.

No lentor silencioso da noite vejo a galera sobrevoar o baixio da cidade, os Largos de Santo António, Santiago, movimentando-se suavemente na direcção austral. Os possantes cavalos lindos, em vida, por vezes, indómitos, estão agora dóceis hacaneias. Continuam a puxar a comprida galera, e a procissão, o cortejo infindável das almas seguem-nos.

Quando a galera passa sobre a antiga moagem oiço o coro sublime das almas. É um cântico celeste apaziguante, saído das pautas de livros litúrgicos, hinários, santorais. Um cântico que só Brahms, no seu atrevimento criativo, tentou aproximar-se com o Requiem Alemão.

Vejo a galera do Clemente, seguida pelo cortejo infindável, atravessar a noite, tal qual um cometa com a sua extensa cauda. Milhares de mortos, de almas, ali vão num propósito de inteligência superior que, finalmente, encontrou um destino existencial.

Vejo tudo isto através de um exercício transfigurador do real, onde se ousa, não se teme a aventura nos labirintos da floresta surreal. Talvez um númen, qual relâmpago que nos transporta a um espaço entre a terra e o além célico.

Vejo essa procissão das almas sobrevoar a cidade, mas não se pense que encontro nisso algo de fúnebre, de lutuoso. Pelo contrário, recebo essa visão com a maior das alegrias, uma explosão de graças por vislumbrar nessa imagem o ósculo da comunhão entre vivos e mortos. Estamos aqui todos juntos, representamos passado, presente e eternidade. Somos existência no universo do Criador. Somos o sonho, a comunidade de Arandis, a nossa identidade, a nossa história-mãe.

Já tenho idade e suficiente história de vida para estar consciente da grandeza do universo maravilhoso, da energia, da proporção olímpica da sua luz. Assim, ao ver a galera e as almas fico sem receio da morte. Por mais estranho que possa parecer até me envolve uma disponibilidade para partir, voar, juntar-me a elas. É possível que queira uma ascensão purificadora. Assaltam-me dúvidas. Todavia, uma certeza tenho. Estou inteiramente tranquilo, sereno, pronto à aceitação do inevitável, da morte. Mas, simultaneamente, encontro-me com grande alegria por continuar vivo e com ânimo pela vida. A vida é um árduo e permanente trabalho de insistência. Nunca me entendi com a apatia, a desistência. Insisto, peremptoriamente insisto na vida.

Haverá algum contraditório em tudo isto? Contradigo-me ao encarar, assim, a vida e a morte? Interrogo-me. Ou será que já me encontro apto a entender, com algum rigor, as palavras de S. Francisco de Assis, irmã vida, irmã morte?, adianto esta outra interrogação. E se assim for, que receio poderei ter em me juntar às nossas almas? Estando lá, aqui estarei todas as noites de visita à minha cidade natal. Lá e aqui estamos irmanados, somos a mesma comunidade.

Estou no interior do sonho. O sonho de Arandis. Num lugar inexistente e num tempo intemporal. Espaço e tempo mágicos que me situam entre o aqui e o lá. Que me permitem amar, com a mesma intensidade, cada uma das partes do binómio existencial.

Estou no interior do sonho. Onde é chegar e partir. Quem está no interior do sonho vai ao céu e torna a vir.

Viajo de novo à minha infância, à adolescência, quando via passar nas ruas, nos largos, a fantástica galera do Clemente. Os três cavalos lindos, o exímio cocheiro e os estrénuos carregadores de sacas. Todos numa incansável persistência laboral para trazerem o pão à nossa comunidade.

O edifício singular da moagem no Largo de Santiago e, à sua ilharga, a fábrica metalúrgica com centenas de operários. No final do dia de trabalho, quando os metalúrgicos saíam para o largo, ficava a pairar naquele espaço um cheiro sobrenatural intenso como a chama de um discurso eloquente. Na atmosfera misturavam-se o odor da ganga suada e o aroma do trigo ensacado da moagem. O acre cruel do metal fundia-se com a doçura do olhar das ceifeiras que teimava em perfumar o trigo. Então, até ao crepúsculo ficava ali uma solene fragrância a pão e trabalho. Uma essência divina, comovente. A galera chegava, entretanto, da sua última viagem quotidiana à Estação de caminho-de-ferro. De seguida aparecia a noite numa densa quietude. O mundo tem muitos mundos e muitos dias. E esse mundo do trabalho e do pão no Largo de Santiago recomeçaria, a horas certas, no dia seguinte…

Volto, com radial vivacidade, ao interior do sonho.

Agora acompanhado, em fundo musical, pela Valsa II da Suite de Jazz N.º 2 de Chostakovitch, composição repassada por uma nostalgia de névoa espessa e encanto, onde se casam o amor, a vida e a morte.

Na serenidade da noite vejo a galera do Clemente, com o cortejo das almas, no seu voo lento a afastar-se da cidade na direcção austral. E a valsa acaba por ir com ela.

No futuro haverá, também, o supremo momento do inevitável para um cardeal que ascenderá aos espaços celestes. E aí chegado, certamente irá ao encontro da sua galera querida.

Se assim for, estou convencido de que o cocheiro lhe entregará as rédeas dos cavalos lindos.

Ao cardeal, experiente na exaltação da vida, caber-lhe-á, então, decifrar os caminhos da morte, conduzindo até à eternidade o cortejo infindável das almas de Arandis.

IDEIA

ESTRUTURA CRIATIVA

PRODUÇÃO DE SLIDES

SELECÇÃO MUSICAL

ANDRADE SANTOS